14 histórias infantis comentadas para crianças



As histórias infantis acompanham a humanidade há muito tempo.


Grande parte delas, sobretudo os contos infantis, eram no princípio bastante diferentes das versões que hoje conhecemos. Isso porque a ideia de infância era também bem diferente.


Atualmente, os adultos utilizam histórias diversas e fábulas para entreter os pequenos, geralmente com leituras na hora de dormir.


Por isso, selecionamos 14 histórias conhecidas e trazemos análises sobre cada uma delas.


1. O patinho feio


Esse conto foi escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen em 1843 e transformou-sem em filme da Disney em 1939.


A história nos fala sobre aceitação e pertencimento. O patinho, depois de ser muito humilhado e experimentar sentimentos de angústia, desamparo e baixa auto estima, consegue se dar conta de seu valor. Isso porque ele descobre que, na verdade, estava inserido em um ambiente que não era o seu por natureza, pois ele era um cisne.


Em alguma medida, a narrativa conta sobre emoções presentes no universo infantil. Muitas vezes, as crianças sentem-se deslocadas entre os amigos e mesmo na própria família. Tais emoções, se não tratadas, podem ser levadas para a vida adulta também.


Então, a história do patinho feio nos mostra uma busca interior em direção a um resgate e descoberta de nossa potência como seres humanos, assumindo toda a nossa "beleza" e auto-amor escondidos.


É um conto que explora também a questão do "diferente". Pois, o patinho não era nem um pouco parecido com seus irmão, não se adequando e vivendo sempre isolado. Mas, à medida que sai em busca de sua totalidade, ele se depara com sua força na diferença, afinal, todos nós somos diversos uns dos outros.


Vale lembrar que o pato é um animal "híbrido", que vive tanto na água quanto na terra, simbolizando assim o diálogo entre o mundo do consciente e do inconsciente.


2. João e Maria


A história em questão foi escrita pelos irmãos Grimm, escritores alemães que viveram em meados do século XIX. Eles se inspiraram na tradição oral, que passava através da fala diversas histórias de geração para geração.


Em João e Maria, temos uma narrativa que nos fala sobre a consciência de que nem todos os momentos da vida são de felicidade e sobre a busca pela independência dos pais.


As crianças representam o lado masculino e feminino em cada um de nós, que, diante do desamparo, adentra o desconhecido (a floresta, no caso) e se perde, sem saber como voltar para casa, mesmo deixando "pistas" no meio do caminho.


Assim, nessa procura, eles encontram algo maravilhoso, a satisfação total, uma casa feita de guloseimas! Eles então, a princípio, se iludem pensando que estariam em um ambiente incrível e que a vida seria uma grande festa.


Mas a lição é que tudo tem seu preço, e por conta de seus excessos, se deparam logo com uma bruxa má, que pode ser o símbolo das frustrações e mesmo das consequências causadas pela impulsividade.


A bruxa os faz prisioneiros e as crianças precisam dessa forma acessar suas forças internas, criatividade e coragem para se livrarem do apuro.


João e Maria conseguem sair vitoriosos, e ainda carregar as riquezas da bruxa má, que podem sinalizar que eles levam consigo os ricos aprendizados de tal situação.


3. Pinóquio


O menino de madeira Pinóquio teve sua primeira aparição na história As aventuras de Pinóquio, em 1883. Escrita pelo italiano Carlo Collodi, esse conto ganhou diversas versões, sendo o mais conhecido o da Disney, lançado em 1940.


A palavra pinóquio vem do italiano e significa "pinhão".


Na história, o que está colocado é a perda da ingenuidade e a construção de uma personalidade sólida. Tanto que, o boneco de madeira é feito como uma marionete, o que significa que ele é facilmente manipulável.


Impossibilitado de atuar no mundo por si mesmo, Pinóquio entras nas maiores enrascadas ao fazer apenas o que outras pessoas sugerem.


O boneco também se esquiva de suas responsabilidades a todo tempo, desviando-se do caminho da escola e dos seus afazeres. Essa é uma maneira de demonstrar o apego à infância e falta de maturidade.


Outro ensinamento importante é sobre a falsidade, exibida no conto através do nariz do menino, que aumenta de tamanho a cada mentira contada. Assim, fica explícito que não se deve mentir, pois a verdade sempre aparecerá, de uma forma ou de outra.


Por fim, o boneco, depois de ser enganado por diversas vezes, reencontra seu pai e assume as responsabilidades, adquirindo também a esperteza necessária para não ser mais manipulado. Assim, ele é transformado finalmente em um menino real.


4. Branca de Neve


Branca de Neve é uma história muito antiga que possui diversas versões, assim como os outros contos.


Aqui, os valores que estão postos dizem respeito ao desenvolvimento psicológico e o despertar para uma nova vida, saindo infância/adolescência para a fase adulta.


Branca de Neve é uma menina que tem uma madrasta muito ruim e invejosa, mas talvez essa seja apenas a visão que a criança tem da mãe em determinado momento da vida.


Assim, ao ir para a floresta é como se a garota estivesse fugindo do mundo que conhece e adentrando seu próprio inconsciente, cheio de perigos. Entretanto, ao encontrar os sete anões, Branca de Neve encontra simbolicamente ferramentas que a ajudam a lapidar sua personalidade.


A maçã, segundo a filosofia, representa o coração (o mesmo que o caçador ficou de levar para a madrasta como prova da morte da jovem). Pode simbolizar ainda a passagem da infância para a maturidade sexual (erotismo), assim como na passagem bíblica em que Eva come o fruto proibido.


Ao cair em sono profundo, Branca está simbolicamente absorvendo todo o conhecimento que adquiriu até o momento, sendo despertada novamente quando integra-se com o lado masculino de sua psique, no caso o príncipe.


5. Cinderela, ou A gata borralheira


O conto da Cinderela nos revela uma narrativa sobre a superação e o crescimento.

A moça, que é rejeitada pela família, sente-se sozinha e desamparada, mas através de sua busca interior e criatividade consegue criar um mundo novo para si, tornando-se uma personalidade única, e não superficial como suas irmãs.


O sapato que Cinderela deixa cair ao sair do baile simboliza a liberdade de poder caminhar com segurança e é por meio dele que a jovem consegue se encontrar com o príncipe.

É interessante observar que, segundo a psicologia, os contos de fadas são analogias de processos emocionais a que todo ser humano está sujeito. Assim como nos sonhos, cada elemento dessas narrativas representa uma parte da parte da psiquê.


6. Rapunzel


Em Rapunzel, a mãe da menina representa um desejo incontrolável pelas coisas materiais, que surge e não mede consequências, sacrificando até mesmo a filha, ou seja, seu potencial criativo.


Assim, a garota é entregue a uma bruxa que a aprisiona no alto de uma torre, isolada do mundo externo. A torre é o símbolo da ignorância. A visão de mundo que Rapunzel adquire provém apenas do olhar da bruxa, que representa sentimentos de posse, dominação e mesquinhez.


Mas a menina sabe no seu íntimo que a vida é mais do que se apresenta a ela, e através do canto (ou seja, da arte), ela busca por outros elementos psíquicos. Assim, consegue se encontrar com a parte masculina em seu ser (o príncipe).


Mas nada é tão simples e é preciso que a bruxa corte seus cabelos, que podem ser uma analogia de "cordão umbilical", para que a menina consiga sair da torre e entrar em sua floresta interior (seu inconsciente).


Ela passa por provações até encontrar novamente o príncipe e, com suas lágrimas restaura sua visão perdida, ou seja, seu poder de enxergar um mundo mais potente e criativo.

7. A princesa e o sapo


Esse conto nos apresenta uma situação de passagem da vida infantil para a maturidade, assim como em Branca de Neve.


Aqui, a personagem principal perde um objeto valioso (a bola de ouro), que representa sua infância, sua inocência e privilégios. Assim, é preciso que ela encare seu lado mais sombrio e "asqueroso" como ser humano, que surge na figura do sapo.


A princípio, a princesa não quer enxergar suas falhas, não quer entrar em contato com seus defeitos, pois assim terá que se responsabilizar por suas atitudes. Seu compromisso com uma "mudança interior" é quebrado.


Entretanto, sabendo que era necessário crescer para conseguir se relacionar com o mundo externo mais plenamente, a princesa se acostuma com a presença do sapo, ou seja, ganha intimidade com sua própria natureza psíquica em desenvolvimento.


Enfim, ela faz as pazes consigo, alcançando sabedoria e integrando as partes em conflito de seu ser. Esse momento é representado pelo beijo e pela transformação do sapo em príncipe.


8. A bela adormecida


Simbolicamente, podemos dizer que nos contos em que a personagem adormece, ela está se preparando para despertar para um novo mundo psicológico, mais integrado consigo mesma.


Assim, no conto A bela Adormecida, a princesa Aurora é desde o nascimento predestinada a adormecer. Isso ocorre quando ela tem 15 anos, idade significativa que marca o início da puberdade.


Mesmo com seus pais tomando os cuidados para "protegê-la" e mandando queimar todas as rocas do reino, Aurora encontra uma maneira de se desvencilhar deles e entrar em contato com uma nova realidade, sua sexualidade aflorada.


Ao adormecer, a menina está trabalhando conteúdos emocionais, e esse pode ser um processo longo como um século. Ao se sentir pronta, Aurora pode finalmente encontrar-se com seu príncipe, se curando psicologicamente e ter uma vida mais plena.


Assim, podemos dizer que o príncipe, nesse caso, é uma representação do lado masculino de Bela Adormecida e que, quando ela a beija, é como se ela finalmente conseguisse harmonizar lados opostos de sua alma.


9. Chapeuzinho Vermelho


Chapeuzinho Vermelho é um dos contos que mais causam temor no imaginário infantil. Isso porque ele conta a história de uma menina e os perigos que a rondam, sendo que nas primeiras versões o desfecho é terrível, com a morte da avó e neta.


A narrativa traz uma garota de capuz vermelho, objeto que simboliza seu crescimento e "menarca" (primeiro ciclo menstrual). A menina está em fase de desenvolvimento e precisa passar por algumas provações para alcançar maturidade.


A presença do lobo nos fala sobre a perda da inocência e as consequências de confiar cegamente nas pessoas mal intencionadas. Assim, é preciso aguçar a intuição a fim de se proteger.


O caçador aparece como uma elemento psicológico que representa os recursos internos que adquirimos pra sair de uma situação ruim.


10. A Bela e a Fera


Em A Bela e a Fera, os significados que estão presentes giram em torno do elo afetivo entre pai e filha (chamado na psicologia por "Complexo de Édipo"), e a descoberta do amor.


Ao pedir para seu pai uma rosa, a garota, na verdade, pede um sinal de amor, que o pai vai buscar no jardim do homem que mais tarde se casará com ela.


Bela, quando aceita viver com a Fera, está se comprometendo a conviver com seu lado "animal", assim como no conto A princesa e o sapo.


A moça aos poucos vai se afeiçoando ao monstro e, quando percebe, está em paz com um lado emocional pouco explorado, o que permite que internalize conhecimentos importantes e harmonize aspectos conflitantes em si mesma.


Ao mesmo tempo, Bela descobre que o amor por um homem pode ser construído através da convivência e compreensão.


11. O gato de botas


Geralmente os contos de fadas trazem figuras femininas importantes, entretanto em O gato de botas, todos os personagens são masculinos, tanto o pai quanto os três filhos, e não há a presença de uma mãe.


Assim, o conto nos revela uma perspectiva da psique masculina e a busca pelo seu lado feminino, anima, segundo o psicanalista Carl G. Jung.


A anima é colocada na história através do gato, que mesmo sendo macho, representa a força feminina. Podemos concluir isso ao olhar para mitos e deuses antigos, como Bastet, deusa egípcia com cabeça de gato.


O gato é visto também como símbolo da intuição e está relacionado à Lua e às mulheres que foram tidas como bruxas e queimadas na inquisição.


Dessa forma, o filho caçula ao herdar o gato, a princípio acredita que o animal seja inútil, ou seja, despreza os elementos de sua alma considerados femininos.


Mas com o tempo, percebe que pode chegar muito mais longe se souber usar esses recursos e assimilar a totalidade do seu ser.


12. A princesa e a ervilha


Na narrativa, o conteúdo nos apresenta valores como a espiritualidade, sensibilidade e espírito investigativo.


A realeza normalmente é colocada nos contos de fadas como um símbolo da "nobreza da alma", a coragem, generosidade e dignidade.


Assim, o príncipe, ao buscar por uma princesa verdadeira, está procurando por alguém capaz de refletir sobre o mundo e ter a sensibilidade suficiente para questionar coisas que aparentemente não podem ser vistas, coisas de ordem espiritual.


Portanto a ervilha aparece com essa simbologia, ao passo que os colchões são a representação do mundo como um todo, com as muitas camadas de distrações presentes nele.

13. Cachinhos dourados e os três ursos


Crescimento é o tema central em Cachinhos dourados. No conto, a menina está perambulando pela floresta sem saber para onde ir. Essa passagem traz o significado de estar perdida em suas próprias emoções. Quando encontra a casa dos ursos, a garota entra para explorar, mesmo sabendo que ali não é o seu lugar.


A curiosidade a faz investigar os diferentes papéis em uma família, provando assim a comida de cada urso, sentando em suas cadeiras e dormindo em suas camas.


É por meio da experimentação e da prática que Cachinhos se dá conta de que o papel do pai ou da mãe não lhe cabe, e, mesmo que se sinta bem comendo a comida do filho ou dormindo em sua cama, já é grande demais para ser um "bebê", tanto que quebra a cadeira do ursinho.


Assim, a história traz elementos preciosos para analisar a passagem da primeira infância para a próxima etapa da vida.


14. João e o pé de feijão


Em João e o pé de feijão, o que temos é uma metáfora da separação psicológica que precisa ocorrer entre mãe e filho em algum momento. A vaca da família, que pode ser uma representação da mãe, já não dá mais leite, não alimenta mais o garoto, assim, é preciso que se faça o desmame.


Então, João vai até a cidade a fim de vender o animal ou trocá-lo por algo mais valioso. O garoto usa sua intuição e adquire feijões mágicos, que sua mãe atira pela janela por pensar ser inúteis.


Mas a intuição de João o leva às alturas, isso é simbolizado pela árvore que cresce de repente no quintal. Então o garoto faz a subida ao desconhecido, a um outro mundo, um mundo elevado e novo. Lá existem muitas riquezas, mas João necessita primeiro driblar o gigante, que nada mais é do que um aspecto de sua própria personalidade, a vaidade e mania de grandeza.


Assim, é apenas depois de trabalhar essas questões internas que o garoto consegue voltar ao seu mundo e viver em plenitude com as riquezas (sabedoria) que adquiriu.