Projetos de leitura durante o ensino remoto



"A literatura faz a gente sonhar e abre portas. A leitura permite construir outras narrativas, apresentar novos lugares e mostrar que o mundo é grande", afirma Eliana Cristo De Oliveira, professora na Escola Estadual Luiz Campo Dall’Orto Sobrinho, em Sumaré (SP). A educadora acompanha um grupo de alunas do Ensino Médio que encontraram na literatura um caminho para a liberdade e o empoderamento feminino.


"Queríamos levar a literatura de mulheres negras para inspirar e empoderar outras meninas e assim elas crescessem e saíssem do lugar que a sociedade nos coloca", explica Vitória da Silva Santos, 16 anos. "Desejávamos apresentar referências positivas de outras mulheres negras", complementa Bárbara Silva de Souza, 17 anos. É com essa missão que surge o projeto Club The Readers: Tecnologia e Literatura Libertam. A iniciativa mostra como os livros oferecem a oportunidade de valorizar a história de mulheres negras, fortalecer a autoestima das alunas e inspirar a liberdade de meninas negras, que elas podem chegar em lugares que não pensavam que poderiam ocupar.


O projeto surgiu no início de 2020 e com a pandemia elas precisaram se adaptar. Ao pensar em como fazer isso a distância, viram que as ferramentas digitais poderiam ajudá-las a atingir o objetivo da iniciativa. Perceberam, por exemplo, que os encontros on-line diminuiriam as barreiras da distância, pois poderiam convidar escritoras de outros estados para participar de uma roda de conversa - algo que no presencial não teriam recursos disponíveis. Foi assim que organizaram o primeiro café literário com a escritora Simone Ricco. Em um encontro pelo Google Meets, a autora teve a oportunidade de contar sobre sua vida e os livros que publicou, além de interagir com quem participou. "É importante dar voz para a mulher negra, falar da literatura escrita por mulheres negras e trazê-las para inspirar", ressalta a professora.


As jovens também usaram ferramentas como o Survey Monkey e o Google Forms para fazer questionários sobre perfil literário da escola, testar o conhecimento dos participantes e entender as obras que as alunas tinham interesse em conhecer. Também criaram um mural digital pelo Padlet para reunir relatos sobre os encontros on-line. Além disso, divulgaram as iniciativas pelos grupos de WhatsApp da escola e pela página no Facebook do projeto. Esses espaços virtuais buscam criar um lugar de interação para falar e trocar experiências sobre livros.


O projeto foi um dos 50 vencedores do Desafio Criativos da Escola, iniciativa do Instituto Alana que busca incentivar crianças a jovens a transformarem suas realidades, e recebeu R$ 2 mil como premiação. A verba, segundo as alunas, será usada para enriquecer a biblioteca da escola com livros escritos por mulheres negras. “Abrem muitas oportunidades que podem mudar o nosso futuro”, afirma Raissa da Silva Batista, 15 anos.


No ano passado, as alunas organizadoras também mergulharam em livros de autoras como Cidinha da Silva, Carolina Maria de Jesus, Djamila Ribeiro e Chimamanda Ngozi Adichie como forma de estudo para a preparação das iniciativas de 2021. Entre as ações para este ano, as jovens contam que pensam em expandir o projeto, organizar outros cafés literários com autoras - o próximo será com Cidinha da Silva, fazer um festival de leitura na escola e promover palestras.


Um projeto com anos de experiência todo reformulado A Academia Estudantil de Letras (AEL) é uma iniciativa da secretaria municipal de São Paulo e inspira-se na Academia Brasileira de Letras. Nela, os alunos que participam escolhem um "amigo literário", isto é, decidem qual será o autor em que irão se aprofundar durante a permanência do projeto.


Nos encontros semanais, os estudantes participam de atividades literárias e teatrais. Além disso, têm momentos de leitura, discussão de livros e fazem a interpretação e adaptação para o teatro do que leram. Existem diversas situações que marcam as atividades do projeto como a festa de fundação da AEL, a semana de arte moderna, as saídas culturais, os seminários e a festa de posse - quando os alunos “ocupam” a cadeira do seu amigo literário.


A EMEF General Newton Reis, em São Paulo (SP), é a AEL Cecília Meireles. As professoras Miriam Neiva e Lucicleide Freire Lima inauguraram a Academia em dezembro de 2016. Desde então, o projeto cresceu muito. Em 2020, teriam 70 alunos do Fundamental 2 participando da iniciativa, no entanto a pandemia mudou a dinâmica. "Tivemos de nos transformar e fazer tudo diferente", explica Lucicleide. Entre os 70, elas tiveram a participação entre 20 e 30 alunos que oscilaram durante o ano. "Quem já participava, continuou", explica a educadora. A principal dificuldade foi o acesso a recursos tecnológicos.


Na primeira fase da adaptação, as professoras mantiveram o contato com os alunos por WhatsApp para incentivá-los a continuar os estudos do seu amigo literário. Depois, começaram a marcar encontros pelo Google Meets para dar continuidade aos seminários. Nesses encontros, o estudante responsável fazia a apresentação do seu amigo literário e os colegas participavam fazendo a interpretação ou leitura de textos selecionados.


A preparação para cada seminário era de 15 dias. Para isso, o aluno responsável escolhia os textos do seu autor que gostaria que seus colegas interpretassem. Enquanto ele se preparava para a apresentação, os colegas ensaiavam e faziam a gravação e edição da mesma. Quem não podia entrar no dia, deixava a interpretação gravada para ser apresentada no dia do seminário. Foram realizados ensaios e reuniões antes do seminário para definir os principais detalhes. "Eles eram muito autônomos, entre eles se organizavam. Foi um trabalho que deu resultado. Era uma turma que estava com a gente há um tempo e eram parceiros", relata Miriam, responsável pela frente do teatro.


Além do acesso à internet e recursos digitais, outra dificuldade encontrada foi a impossibilidade de pegar os livros da sala de leitura. No entanto, as professoras contam que receberam de instituições e da Secretária de Educação o acesso a livros digitais gratuitos. "Tivemos alunos que leram muito. Recomendamos os livros e eles iam atrás", diz Miriam. A educadora conta que muitos alunos relataram o cansaço do isolamento social e encontraram nos livros um refúgio durante a pandemia, sem poder ir à escola ou sair de casa.